Jamais deixa de ser livre um povo que o quer ser

No âmbito da Revolução Liberal de 1820, assinala-se hoje, dia 15 de dezembro de 2020, o duplo centenário sobre a publicação do “Manifesto [Liberal] da nação portuguesa aos soberanos, e povos da Europa”, redigido por Frei Francisco de São Luís. (consultar texto integral do documento em https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/518749)
Através dessa revolução, Portugal – nação briosa –, pretendeu regenerar-se, mediante a restauração da liberdade perdida tanto pelo despotismo ministerial como pelas invasões e proteções estrangeiras.
Segundo as próprias palavras do “Manifesto”, o que naquela altura o país queria e desejava não é uma inovação, é a restituição das suas antigas e saudáveis instituições, corrigidas e aplicadas segundo as luzes do século e as circunstâncias políticas do mundo civilizado; é a restituição dos inalienáveis direitos que a natureza lhes concedeu, como concede a todos os povos; que os seus maiores constantemente exercitaram e zelaram, e de que somente há um século foram privados, ou pelo errado sistema de governo, ou pelas falsas doutrinas com que os vis aduladores dos príncipes confundiram as verdadeiras e sãs noções de direito público.


1820#1920 | LIBERALISMO EM TEMPO DE REPÚBLICA
Desde a década de 1880 que a ideologia republicana se afirmou através do patriotismo e da memória histórica. As comemorações camonianas foram, nesse sentido, uma oportunidade de afirmação republicana, assim como foi a evocação da Revolução Liberal. Na verdade, o republicanismo olhou para 1820 como prova de força do espírito do povo português, apropriando-se do vintismo para legitimar e revigorar o regime em crise imposto em 1910.
Em 1920, numa época marcada ainda pela Primeira Guerra Mundial e por uma profunda instabilidade política, económica e social, a comemoração do centenário da Revolução Liberal foi amplamente aproveitada, levando a um conjunto de iniciativas oficiais, quer no Parlamento, quer nas câmaras municipais.
Agora que o tempo é de comemorar o segundo centenário, acreditamos ser útil regressar a esse momento e procurar saber se terá sido o reatar dessa memória uma mera afirmação formal de patriotismo ou terá sido visto como a grande oportunidade para uma refundação do regime republicano.
Por isso, munidos do jornal O Comércio do Porto, revisitamos a cidade e acompanhamos de perto as cerimónias realizadas em 1920. Mas antes de iniciarmos essa descoberta, o melhor será recuarmos ao palco dos acontecimentos de 1820, no Porto…

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